Acabou, porra!
Ao sair ontem de manhã do Alvorada, o presidente Jair Bolsonaro estava irascível. “Acabou, porra! Não dá para admitir mais atitudes de certas pessoas individuais tomando quase que de forma pessoal certas ações. Somos um país livre e vamos continuar livres, mesmo com o sacrifício da própria vida.” Sua ira era voltada contra o Supremo Tribunal Federal. “Chega! Chegamos no limite. Estou com as armas da democracia na mão.” Ele se queixava do inquérito em curso para investigar a origem do financiamento e a autoria da máquina de fake news de seu grupo político. “Agora, o condenado maior que está existindo nessa questão é a honra dessas famílias. Não foi justo o que aconteceu no dia de ontem” — referia-se à operação da Polícia Federal na terça-feira.
Referência
Subindo o tom do ataque, Bolsonaro pela primeira vez se referiu a um ministro específico, o decano Celso de Mello, por ter tornado público o vídeo da reunião ministerial de 22 de abril. “Ele é o responsável! Pelo amor de Deus, peço que reflitam, não prossigam esse tipo de inquérito, a não ser que seja pela lei do abuso de autoridade, que está bem claro que quem divulga vídeos, imagens, áudios, do que não interessa ao inquérito. Está lá: um a quatro anos de detenção. O criminoso não é o Weintraub, não é o Salles.” O ministro da Educação, Abraham Weintraub, afirmou que alguns membros do Supremo deveriam ser presos e o do Meio Ambiente, Ricardo Salles, quis aproveitar a atenção do país com a pandemia para cancelar regulamentações ambientais. Weintraub foi convocado a depor e o ministério da Justiça, de forma inusual, entrou com pedido de habeas corpus em seu nome para evitar o testemunho.
Descumprimento
Em essência, o presidente estava ameaçando não cumprir ordens judiciais expedidas pela principal corte do país. Pois no Supremo os ministros acompanham a escalada retórica do presidente com atenção. Pelo menos um dos ministros acredita que Bolsonaro está apenas dando uma de suas “bravatas de sempre”. Por enquanto, é dentro da ordem legal que o Planalto tem se movido. Para evitar o depoimento de Weintraub, por exemplo, o Palácio entrou com um habeas corpus. Mas há apreensão e alerta no prédio do STF, enquanto as decisões vêm sendo tomadas para conter os arroubos do governo.
"Água na fervura"
Enquanto os Bolsonaros aumentam o tom, os militares põem água na fervura. O mais bolsonarista dos generais, Augusto Heleno, já havia descartado na própria quarta a possibilidade de intervenção. Ontem foi a vez do vice-presidente, Hamilton Mourão, em conversa com a jornalista Andreia Sadi. “Quem é que vai dar golpe? As Forças Armadas? Que que é isso, estamos no século 19? A turma não entendeu. O que existe hoje é um estresse permanente entre os poderes. Eu não falo pelas Forças Armadas, mas sou general da reserva, conheço as Forças Armadas: não vejo motivo algum para golpe.”
Preocupação "em bloco"
A preocupação dos generais de se afastar da possibilidade de rompimento constitucional vem em bloco. O ex-ministro Carlos Alberto dos Santos Cruz publicou artigo. “As Forças Armadas são instituições permanentes do Estado brasileiro e não participam nem se confundem com governos, que são passageiros, com disputas entre Poderes ou autoridades. O militar da reserva, seja qual for a função que ocupa, não representa a instituição militar. Foi justamente no regime militar que as FA decidiram, acertadamente, sair da política e ater-se ao profissionalismo de suas funções constitucionais. As Forças Armadas, por serem instituições de Estado, não devem fazer parte da dinâmica de assuntos de rotina política.”
Com informações de Poder 360, Estadão e G1

