O medicamento mais usado no mundo para parar de fumar, de nome comercial Champix (vareniclina), está ligado a um aumento de 72% no risco de ataque cardíaco, acidente vascular cerebral (AVC) e outros problemas cardiovasculares. É o que afirma um trabalho publicado ontem pela Canadian Medical Association Journal. O estudo comparou fumantes sem histórico de problemas cardíacos que usaram o remédio a um grupo de perfil semelhante, que recebeu placebo.
Em janeiro, o produto já havia sido relacionado a problemas psiquiátricos – como o aumento no risco de suicídio. Cerca de 1,2 mil usuários processaram o laboratório, alegando que tiveram episódios de depressão ou de pensamentos mórbidos provocados pela droga.
Há duas semanas, a FDA, agência americana de vigilância sanitária, solicitou à Pfizer, fabricante do remédio, que incluísse uma informação na bula alertando para um risco ligeiramente maior de problemas cardiovasculares em pessoas com histórico de doença cardíaca. A decisão se baseou em um estudo com 700 fumantes. Já o trabalho atual analisou 8,2 mil pacientes sem histórico de males do coração, reunidos em 14 testes clínicos.
O produto é vendido em 99 países, inclusive no Brasil – no mundo, cerca de 13 milhões receberam a prescrição do remédio. A Pfizer, em nota, disse que a análise divulgada ontem reúne um número pequeno de eventos cardiovasculares para sustentar conclusões sobre o remédio. E acrescentou que ele “trouxe benefícios imediatos à vida dos pacientes que deixaram o cigarro”.
Os autores do estudo criticam a droga. “Não vejo como o FDA pode deixar o Champix no mercado”, diz Curt Furberg, do Centro Médico Batista de Wake Forest, nos EUA. “Sabemos há vários anos que o Champix é uma das drogas mais perigosas do mercado americano, baseado no número de efeitos adversos graves. Pode causar perda de consciência, suicídios, violência, depressão, piora da diabete e, agora, sérios eventos cardiovasculares.”
Furberg coordenou testes clínicos para o governo americano e atuou como testemunha em processos contra a Pfizer. Os demais autores afirmaram não ter conflito de interesse. “O risco afeta fumantes sem risco cardíaco”, diz Sonal Singh, da Universidade Johns Hopkins. “E a Pfizer sabe disso há cinco anos.”
O pneumologista José Roberto de Brito Jardim, da Unifesp, diz que, por enquanto, “os riscos associados à medicação ainda são bem menores que os associados ao cigarro”. Segundo ele, basta um bom acompanhamento médico. Para João Paulo Lotufo, do Hospital Universitário da USP, ainda são necessários outros estudos.
Já para o cardiologista Abrão Cury, do Hospital do Coração (HCor), os números preocupam. “É recomendável a suspensão da indicação até que mais estudos sejam feitos”, diz. O uso da vareniclina isoladamente, acredita, tem oferecido resultados pobres na suspensão do hábito de fumar. “Não estaríamos perdendo uma arma importante se não pudéssemos mais utilizá-la.” Ele lembra outras alternativas à droga, como o uso de antidepressivos e a reposição de nicotina.
Pacientes ficam surpresos
O anúncio da publicação estrangeira surpreendeu ex-fumantes que usaram o medicamento. “Acho que vale muito para o tratamento”, afirma o analista de sistemas Edson Antônio dos Santos, de 44 anos, que fumou por 25 anos e parou há um ano. “Claro que pesou o psicológico, mas o medicamento teve participação efetiva para eu abandonar o cigarro. Eu sofria de hipertensão. O remédio não piorou meu quadro.”
O vício também foi abandonado pelo empresário Fábio Mashiba, de 32 anos. “Fui orientado por um cardiologista. Segui a bula e depois de cinco dias (com o remédio) perdi o prazer do cigarro”, diz ele, que não fuma há dois anos. “Só vou falar bem do Champix.”
O comerciante Márcio Martalonne, de 36 anos, não parou de fumar após usar o medicamento, mas ficou surpreso ao saber dos riscos cardíacos. “Conheço muita gente que conseguiu parar e não teve problemas”. Para Mashiba é importante “mensurar” os riscos do tratamento e do fumo.