Enquanto a Fifa pressiona o Congresso brasileiro para permitir a venda de bebida alcoólica em estádios durante a Copa do Mundo de 2014, a Uefa segue o caminho oposto e proíbe a comercialização de álcool em seus eventos na Europa.
Na terça-feira, a comissão especial da Câmara dos Deputados aprovou o projeto da Lei Geral da Copa, que permite a venda de cerveja, em copos de plástico, em todos os setores dos estádios durante a Copa do Mundo de 2014. Nas áreas VIPs, outras bebidas alcoólicas serão comercializadas segundo o texto, que ainda depende de novas votações no plenário e no Senado e da sanção presidencial.
A decisão é diferente da medida adotada pelos organizadores da Eurocopa deste ano, que será realizada na Ucrânia e na Polônia. A proibição à venda de bebidas está no estatuto de segurança adotado em 2006 pela Uefa - a entidade europeia de futebol que é responsável pela Eurocopa e por outros dos torneios mais lucrativos do mundo, como a Liga dos Campeões da Europa e a Liga Europa.
A restrição vale apenas para eventos da Uefa. Fora do âmbito da entidade, cada país europeu trata a venda de bebida em estádios de forma diferente.
Na Alemanha, a venda de bebida alcoólica é totalmente liberada em todos os jogos do campeonato nacional. Já na Itália, a comercialização é proibida em todos os jogos de futebol.
A Inglaterra adota um sistema misto para a Premier League, que permite que torcedores bebam durante determinados períodos e em partes do estádio com visão restrita do gramado. Em tese, a venda de bebida é proibida em todos os jogos de futebol ingleses, mas os estádios recebem licenças especiais, que permitem a comercialização 15 minutos antes do começo do jogo, nos 15 minutos anteriores ao final do primeiro tempo e nos 15 minutos após o início do segundo.
Diferenças
Apesar de a Eurocopa e a Copa do Mundo serem eventos esportivos muito semelhantes, a Fifa e a Uefa adotam argumentos bastante distintos para defender posições opostas sobre a venda de álcool em estádio.
Em uma audiência na Câmara dos Deputados, em novembro, o secretário-geral da Fifa, Jerome Valcke, disse que o consumo de bebida alcoólica em estádios nunca causou problemas em Copas do Mundo.
Ele diz que a entidade tem uma parceria com a cervejaria Budweiser para venda controlada de cervejas nos estádios da Copa, o que significa que é obrigatório usar copos de plásticos.
O professor de direito Geoff Pearson, da Universidade de Liverpool, avalia que a proibição da Uefa é baseada no senso comum de que bebida alcoólica leva à violência nos estádios e que é mais conveniente para a entidade estabelecer uma regra geral, em vez de analisar caso a caso.
Pearson acrescenta que a diferença de postura entre a Fifa e a Uefa pode ser meramente um reflexo de opiniões distintas dos indivíduos que comandam os comitês de segurança de cada órgão. Mas ele não descarta a influência de interesses comerciais.
"Pode ser que a cervejaria que patrocina a Liga dos Campeões seja muito menos 'institucionalizada' na Uefa, enquanto a patrocinadora da Copa do Mundo pode pensar: 'nós temos que pagar milhões de dólares para vocês, e nós não podemos nem vender nosso produto no seu estádio, porque você acha que isso pode gerar hooligans descontrolados'. Não seria o melhor tipo de marketing para uma cervejaria", diz Pearson.
"Não tenho dúvida de que existe pressão comercial para permitir a venda de cerveja", acrescenta o professor de direito.
Ele ainda aponta outro fator contraditório na política da Uefa. Em eventos como a Liga das Campeões, é permitido o consumo e venda de bebidas em áreas VIP e executivas.
"Se você paga uma certa quantia pelo seu ingresso, eles confiam que você pode beber, mas um torcedor comum, não", argumenta.
Soberania
Pearson, que está lançando um livro sobre violência e torcedores ingleses, afirma que a relação entre álcool e violência nos estádios é uma questão cultural, e precisa ser definida por legisladores de cada país.
No livro An Etnography of English Football Fans: Cans, Cops and Carnival, que será lançado ainda neste ano, o professor defende que não existe nenhuma prova de que a proibição à venda de álcool em estádios ingleses reduziu a violência no país. Nem mesmo a polícia inglesa pedia a proibição, afirma Pearson.
Ele avalia que outras medidas - como marcar clássicos perto do meio-dia, dando pouco tempo no dia para os torcedores se embebedarem - foram mais eficazes para reduzir a violência no futebol inglês.
Já na Escócia, a própria polícia pediu para que o álcool fosse proibido, o que segundo Pearson é um sinal de que a proibição pode ter ajudado a reduzir a violência lá.
Um especialista britânico que está trabalhando em um projeto para alterar a legislação inglesa - liberando a venda de cerveja em estádios - concorda que cada país precisa analisar se, dentro da sua cultura, o álcool desempenha um papel importante na violência nos estádios.
Mas ele diz que o esforço da Fifa para liberar a venda pode gerar um ônus maior para as autoridades brasileiras, que são responsáveis pela segurança durante a Copa do Mundo.
"O comitê organizador da Copa e as autoridades brasileiras são responsáveis pela segurança nos estádios, não a Fifa", disse à BBC Brasil o especialista, que já trabalhou como consultor de segurança para a Uefa.
"Como isso pode ser assim? A Fifa diz ao Brasil: 'vocês são responsáveis por segurança, mas vocês precisam vender cerveja nos estádios, querendo ou não'."
Na contramão da Fifa, Uefa proíbe venda de álcool em estádios
Comissão aprova consumo de cerveja na Copa de 2014; na Euro 2012, venda será proibida.