O presidente da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), Roque Pellizzaro Júnior, afirmou nesta quarta-feira que a fusão entre os grupos Pão de Açúcar e Carrefour pode gerar aumento de preços para os consumidores. Para Pellizzaro, o impacto da fusão entre os dois grupos ainda não pode ser medido, mas a concentração no varejo brasileiro é um processo preocupante.
"A concentração gera aumento de preços. No mínimo, desestimula a queda. Tira um concorrente peso-pesado do mercado. A fusão vai gerar uma concentração bastante pesada. Quando junta os dois, gera uma empresa que passa a ser a terceira maior empresa brasileira, só atrás da Petrobras e da Vale", disse. O presidente da CNDL também criticou a entrada do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) na operação, que poderá participar com até 18% das ações da nova empresa.
"Se tivesse envolvido só a iniciativa privada, mas tem dinheiro público no meio, e bastante. O Brasil tem que começar a discutir com o governo para quê esse dinheiro deve ser usado. A grande pergunta é: qual é a função do BNDES? Ele tem função de fomento, não de lucro. Isso traz benefício para o brasileiro? Enquanto a gente vê micro e pequenas empresas pagando juros acima da realidade, vê dinheiro público nessa operação que não é produtiva, mas especulativa", afirmou.
Pellizzaro também elencou os prejuízos à concorrência caso a fusão se concretize. O presidente da confederação dos lojistas destacou que empresas maiores têm mais possibilidades de conseguir capital no exterior com juros menores do que as empresas de pequeno porte conseguem no Brasil. Além disso, ele acredita que haverá demissões e fechamento de lojas, ao contrário do que prometem os grupos envolvidos na operação.
"Na parte administrativa eles não vão manter duas, vão fechar uma, certamente. As empresas fazem fusão para aumentar sua penetração no mercado e a rentabilidade, e um dos fatores é a redução de custo com manutenção de receita. Não vão fechar lojas amanhã porque se isso acontecer, outro concorrente vai se estabelecer naquele lugar. Mas vão viabilizar no médio prazo outro segmento de mercado para usar o ponto que não seja concorrente", argumentou.
O presidente lembrou, ainda, que o Brasil optou pela concentração no caso dos bancos e, pela falta de concorrência no setor, o "spread" pago pelos correntistas é um dos maiores do mundo (spread é a diferença entre o valor que o banco paga para tomar dinheiro emprestado dos correntistas e os juros cobrados em empréstimos como o cheque especial). "O Brasil vê os efeitos da concentração no sistema financeiro, nossa opção foi por concentração de bancos e não houve nada ilegal nem imoral nesse processo, foi projetado para acontecer assim. Hoje você vê o spread bancário em maio de 2011 foi de 28%, um dos mais altos do mundo. Isso porque falta concorrência", disse.
Entenda
O grupo francês Carrefour anunciou em 28 de junho ter recebido uma proposta de fusão de ativos no Brasil com os da Companhia Brasileira de Distribuição (CBD), do grupo Pão de Açúcar. A operação precisa ser aprovada pelos acionistas dentro dos próximos 60 dias. O BNDESPar e o BTG Pactual foram os parceiros escolhidos por Abílio Diniz para tentar concretizar a união, em uma complexa operação para não ferir acordo de acionistas.
Diniz e Pão de Açúcar estavam impedidos de negociar diretamente com o Carrefour sem o consentimento do grupo Casino, que detém 43% da rede brasileira, devido a cláusulas do acordo de acionistas firmado em 2006. De qualquer forma, a união entre Pão de Açúcar e Carrefour no Brasil não sairá sem a aprovação do sócio francês. Pelos termos apresentados, a Gama e o BNDESPar formarão a Nova Pão de Açúcar (NPA). Após uma série de etapas, o Carrefour terá sua operação no Brasil incorporada pelo Pão de Açúcar.
A proposta envolvendo o Carrefour no Brasil surge depois que o Pão de Açúcar comprou nos últimos anos Ponto Frio e Casas Bahia, consolidando sua liderança no varejo do País. As duas aquisições ainda não passaram pelo crivo do órgão antitruste, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).
A proposta prevê que a aquisição das lojas do Carrefour no Brasil por meio da Gama, fundo de investimentos do BTG Pactual, vai ocorrer com investimento de 1,7 bilhão de euros do BNDESPar e de 300 milhões de euros pelo BTG Pactual, que também vai arcar com dívida de 500 milhões de euros da varejista francesa no Brasil. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) também estuda participar da sociedade, com cerca de R$ 4,5 bilhões.
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