Um cinema de rua e de interior que chamava a atenção dos moradores, de visitantes, por seu valor histórico, cultural e por sua arquitetura. Um local que era atração principal em Pilar, município da Região Metropolitana de Maceió, e que serviu de palco para diversos filmes mudos, como os trabalhos de Charlie Chaplin, artistas e personalidades, a exemplo de Luiz Gonzaga e Waldick Soriano. 

Esse mesmo espaço, localizado na Rua João Carlos Cabral (Centro de Pilar),  entre os dias 23 e 25 de março será palco para o primeiro grande evento de cinema, a mostra Curta Pilar. Serão três dias de resgate de memórias, de afetos e da identidade original do Cine Pilarense, que é a exibição acessível de filmes próximo à praça pública. Assim como hoje, o espaço também já foi um dos points mais bem vistos e aclamados dos anos 20 aos anos 80/90.

Para Matheus Guilherme, 24 anos, jornalista e pesquisador da história do Cine e que também é autor da reportagem "A fênix da sétima arte alagoana: conheça a história do Cinema de Rua de Pilar, restaurado após três décadas em ruínas", o Cine Pilarense é um dos poucos locais que traz a história da sétima arte do Estado. Ele também acredita que a mostra vai fazer com que os pilarenses reconheçam a importância do nosso cinema.

"A mostra vai trazer esse despertar para aqueles que não tem a compreensão da grandiosidade histórica que Pilar carrega por causa do Cine Pilarense. A mostra de cinema vai trazer pra o Pilar acho que mais destaque. Esse espaço é necessário para a cidade, a arte no geral se faz muito necessário. A arte faz com que as pessoas tenham esperança de novo", disse ele.

O diretor do Cine Pilarense, Sérgio Moraes também se diz alegre com a mostra. "Esse local, espaço cultural, que vai completar 100 anos, foi devolvido de volta aos pilarenses, como um valor sentimental e gratidão. Estamos de volta 40 anos depois neste espaço cultural que serve à comunidade pilarense e aos visitantes. É uma alegria imensa receber essa mostra agora", comentou Moraes.

O início de tudo

Tudo começou com a construção do prédio em 1924 a mando de Vespertino Lima, irmão de Eurípedes Lima, dono do Armazém da Praça. No Cine Éden, como era chamado, eram exibidos filmes com temáticas indígenas e com a comédia dramática de Chaplin. Não havia um sistema de som adequado para as sessões, era tudo acompanhado pelo toque do piano de Dona Maria Eunice, que ficava ao lado do palco. 

A divulgação dos filmes era por meio do "boca a boca", através do grito de Eurípedes pela cidade. Crianças, adultos, idosos e casais eram atraídos pela divulgação e pelos trabalhos projetados no cinema. Todos os bancos de madeira do antigo Cine Éden eram ocupados.

Em 1948, o empresário pernambucano Albino Pimentel chega a Pilar para comandar a Companhia Pilarense de Fiação e Tecidos, fundada em março de 1892. Ele comprou a companhia, mas deu para seu filho, Hilton Pimentel, porque voltou para a cidade de Goiânia (PE). Hilton também comprou o Cine Éden e construiu o Cassino Pilarense, um bar que ficava ao lado do cine onde os funcionários da companhia e a classe trabalhadora se reuniam aos finais de semana.

Com os empreendimentos, Pimentel se torna um grande nome na cidade. Ele comprou o cinema a fim de mordenizá-lo, já que as cadeiras erarm desconfortáveis, as projeções não tinham áudio, entre outras coisas. Com o passar dos anos, Hilton ampliou o cinema, mudou o nome (Cine Pilarense) e a estrutura, com máquinas novas e modernas, 365 cadeiras novas e um sistema de som.

As sessões ficavam lotadas. Ia gente a cavalo, carroça, carro, a pé, caminhão, de todo jeito para prestigiar o cinema.

Terceira fase do Cine Pilarense

Hilton Pimentel também atuou como deputado federal e se envolvia intensamente com a população, construindo casas para pessoas da classe baixa. Segundo historiadores, sua carreira política era conturbada por se opor ao governador do Estado da época, o Silvestre Péricles. Isso tudo incomodou Péricles, que perseguiu Pimentel e quem era do lado dele. Mandou até capangas bater nos funcionários da companhia.

Devido a essa perseguição e as dificuldades na Assembleia Legislativa, Hilton decidiu sair de Alagoas e vendeu muitos empreendimentos, entre eles o Cine Pilarense, que foi comprado por Rubens Barros na década de 1960. Rubens investe em geradores automáticos, quatro grandes ventiladores e um gerador de energia. A nova gestão também focou em colocar uma boa programação.

Siga o Instagram da mostra: @mostradecinemapilar

Apesar disso, o Cine Pilarense começou a decair por causa da globalização e do avanço da tecnologia nos anos 80. 

"Nos anos 80, com a chegada dos vídeoscassetes, as pessoas deixaram mais de irem ao cinema, aí alugavam as fitas para assistir filmes em casa, com a fita VHS. Depois veio o DVD. O cinema de rua, de interior, foi perdendo público e ficou apenas os cinemas dos shoppings. Foi uma época que houve a transformação tecnológica", contou Sérgio Moraes.

A revitalização

Em 2011, o prédio foi tombado pelo Conselho Estadual de Cultura (CEC) e integrado ao Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural e Natural do Estado de Alagoas. Em 2018, a prefeitura decidiu iniciar uma obra de restauro do monumento. As obras duraram dois anos. A iniciativa era devolver à cidade o prédio do antigo cinema e com ele tornar vivo e presente as lembranças da época em que a sétima arte era venerada pela população do interior.

A reabertura, que antes estava prevista para o aniversário de emancipação política da cidade, no mês de março de 2020, foi adiada por causa da pandemia, sendo restrita apenas para autoridades e pessoas envolvidas na reforma e transmitida para população pelas redes sociais. 

O monumento passou a sediar reuniões municipais até que, por meio de um decreto municipal, pôde realizar a sua primeira sessão depois de quase trinta anos. No local há uma estrutura mais moderna e 135 poltronas, com ar-condicionado, palco e uma tela para projeção.

Curta Pilar - 1° Mostra de Cinema foi um projeto premiado no edital de produção Dinho Oliveira, via Lei Aldir Blanc, com repasse feito pela Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa (Secult-AL); realização e idealização da Auá Produções, que tem como CEO e produtor cultural o artista Alex Zampielly; produção da InReais Filmes, apoio da Prefeitura e da Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Pilar.