Eliane Aquino

Alagoas ganha uma série audiovisual de fotografias, projeto sob a direção da fotógrafa Amanda Bambu, intitulada “A cara da fotografia contemporânea alagoana”. São cinco episódios com a participação dos fotógrafos Roger Silva, Gabi Coêlho, Nathalia Bezerra, Jorge Vieira e Fernanda Simões, roteiro do professor, produtor musical e semioticista Kemesson Lemos, e apoio da Diteal – Diretoria de Teatros de Alagoas -, que cedeu o Teatro de Arena Sérgio Cardoso para a locação. As gravações tiveram iluminação de Joaddan Campos, e assistência de Aldo.

“A primeira edição da série audiovisual “A Cara da Fotografia Contemporânea Alagoana” é um modelo de pesquisa documental que busca dar vazão aos olhares de quem está fazendo fotografia no estado de Alagoas”, explica Amanda, acrescentando que “neste cenário, vicejam novas percepções e novos olhares focados em narrar histórias para além das praias, apesar de esse elemento ser uma forte referência turística-econômica”.

“E por conseguinte, há narrativas que atravessam gerações, a cultura e o conhecimento. Em outras palavras, as formas contemporâneas de ver Alagoas têm ampliado mais do que nunca o ambiente cultural, da área poética à documental”, destaca a fotógrafa. Segundo ela, a fotografia é uma ferramenta de registro, crítica, denúncia e questionamento. O homem preto tem cada vez mais lutado para contar suas próprias narrativas, com base em suas vivências; mulheres têm mostrado cada vez mais engajamento e respaldo, apesar dos desafios.

“Hoje, Alagoas é polo de um grande Festival de fotografia, “FotoSuru”, dirigido por Jorge Vieira. Há artistas dando voz, subvertendo o olhar para as mulheres trans (que são em sua maioria associadas à marginalidade e à prostituição) e construindo outras ações de forma a ampliar o estudo da contribuição da fotografia”, afirma Amanda Bambu, agradecendo ainda a Alexandre Holanda (Diteal) e sua assistente, Nathália Bezerra, pelo apoio ao projeto audiovisual. 

Quem é Amanda? Amanda Bambu, nordestina, fotógrafa e artista visual alagoana. Morou em Rio Largo até os 17 anos e atualmente reside em Maceió. Iniciou sua jornada na fotografia em 2013 e desde lá vem desdobrando o seu olhar para alguns temas, como: o corpo feminino não padrão, o silêncio da fotografia, o corpo fluido (Projeto Aquário). 

“Gosto da ideia de poder ocupar lugares falando sobre temas subversivos, a última exposição coletiva que participei juntamente com a bailarina Bibi Amorim foi em Otário-London, com o projeto ‘Retratos do Brasil com Deficiência’ na galeria Satellite Project Space. Esse projeto dá voz e vazão a corpos que possuem algum tipo de deficiente e muitas das vezes são invalidados enquanto seres capazes de ter uma vida normal de fato, reforço, precisamos olhar para essas pessoas como potencial criativo, e não como mero corpos inválidos”, diz Amanda, e salienta:

“A cara da fotografia contemporânea alagoana surge com um questionamento: Qual é a cara da fotografia alagoana? Partindo dessa indagação, comecei a acessar lugares desde o google até as galerias físicas e observei que a fotografia aqui em Alagoas está muito associada às praias, Os guerreiros, Lagoa Mundaú. Considero genuinamente esses símbolos, pois são polos marcantes dentro da cultura. Todavia, pesquisei quais são os temas que têm sido desenvolvidos para além desses símbolos que por décadas já vêm sendo falados. Diante disso, busquei fotógrafos e suas narrativas atuais”.

“Temos símbolos que automaticamente associamos à fotografia alagoana, como as praias, guerreiros e a lagoa mundaú, por exemplo; por outro lado uma vasta gama de produção fotográfica muito simbólica também vem sendo criada, partindo não só do que é retratado, como também de quem está por trás dessa fotografia. Falar da fotografia alagoana é entender que existe uma pessoa preta produzindo suas próprias narrativas com base em suas experiências, é saber tem mulheres tendo que lidar com desafios para conseguir se manter no cenário fotográfico, é entender que existem poéticas sendo reveladas, é compreender que existem pessoas se mobilizando para solidificar festivais de fotografia para ampliar a cultura fotográfica. Sobretudo, Alagoas está ocupando galerias em algumas partes do mundo. A fotografia a alagoana é múltipla”, afirma.

Amanda conta que a lei Aldir Blanc motivou a criação do projeto. “Sem essa lei de incentivo, certamente essa pesquisa não seria possível. A cara da fotografia contemporânea alagoana surge com o desejo de criar um documento, uma análise do cenário da fotografia que está evoluindo a passos largos. Em virtude disso, nasce o desejo de transformar esse movimento em documento. É importante citar que essa edição é a primeira de outras que virão, pois temos muitas narrativas para ser ouvidas de fotógrafos que vêm produzindo de forma muito sólida e consiste aqui no estado”, adianta a fotógrafa.

Sobre quem está por trás das câmeras, quais os seus pensamentos, o que suas fotografias estão apontando e quais os desafios para produzir cada uma delas, Amanda Bambu explica: “Já está na hora de adentrar outros campos e olhares do que de fato é a fotografia alagoana, ela está no processo constante de evolução, pois nasce sempre novos artistas contando, por meio da sua fotografia, histórias diversas. Há temas urgentes, não somos apenas praias e o filé, somos aqueles que vêm produzindo e sobretudo enfrentando desafios sociais, morais, financeiros, somos aqueles que criam novas formas de olhar e de fazer memórias. Alagoas do litoral norte até o sertão tem muita coisa para ser olhada de um jeito certo.”

A verdade é que o grande interesse aqui não é a câmera e sua evolução, mas quem tem usado esse aparelho de forma a trazer narrativas que atravessam, contribuem, contam história, documentam e devaneiam. A fotografia alagoana tem ganhado novos espaços, as mãos negras têm ganhado movimento para contar suas próprias narrativas. vozes femininas representando alagoas em festivais nacionais, festival de fotografia alagoana sendo fomentador de conhecimento, entretenimento e cultura. Obra alagoana ganhando espaços em galeria em London e outras partes do mundo. Alagoanos trazendo prêmios nacionais. É, estamos a passos largos”, enfatiza a fotógrafa.