Silvia Bandeira não consegue passar despercebida. Falante e carismática, a atriz chama atenção do alto de seu 1,75 m de altura. No entanto, o que mais se destaca nela, que vive a determinada Suzana em Vidas em Jogo, na Record, é saber conviver com seu passado glamouroso na TV.
Como na época em que protagonizou a trama Um Sonho a Mais, na Globo, ou quando era considerada uma das mulheres mais bonitas da TV, na década de 1980. Agora, esta charmosa suíça de 61 anos, filha e neta de diplomatas, garante que aprendeu a conviver com as marcas do tempo e se orgulha de viver personagens cada vez mais estimulantes na Record.
Afinal, depois de uma mulher que sofria com câncer em Amor e Intrigas, Silvia se diverte com Suzana, uma coroa apaixonada por um estudante que poderia ser seu filho, o aventureiro Raimundo, vivido por Rômulo Arantes Neto na história de Cristianne Fridman. "Usar apenas a beleza nessa profissão ao longo dos anos é patético. Durante muito tempo, fiz a dondoca bonita. Agora, tenho tido personagens muito diversificados na Record", comemora.
Confira a rápida entrevista com a sexagenária atriz:
TV Press - Você entrou em Vidas em Jogo no meio da trama. Como fez a composição de uma mulher mais velha que se interessa por um homem muito mais jovem?
Silvia Bandeira - Como entrei de sopetão, ninguém me deu dica nenhuma para a personagem. A Suzana está se revelando a cada semana. Fui tentar entender porque ela fazia tanto cerco com um menino que parece um "baby". O Rômulo (Arantes Neto) tem cara de adolescente, é muito novinho. Poderia até ser um ator mais jovem, mas que não fizesse uma diferença tão grande. Isso me chamou atenção. Sempre se discutiu o homem mais velho que sai com a garotinha. Hoje, as mulheres estão por cima da macarronada. Elas trabalham, são independentes e podem escolher quem elas quiserem. Não existem regras: se você se apaixona, tudo bem.
Para compor uma pessoa como a Suzana, existem milhares de mulheres assim. Não é difícil achar. Assisti ao filme A Primeira Noite de Um Homem (de Mike Nichols). A sedução que a Mrs. Robinson (interpretada pela atriz Anne Bancroft) fazia com o garoto, vivido pelo Dustin Hoffman bem novinho, era muito interessante.
TV Press - Você se identifica com esta personagem em algum aspecto?
Silvia - Só na independência. Acho que atração é o que pinta. Se você se apaixonar por um jovem, velho, da mesma idade, tanto faz. Na minha trajetória, prefiro a coerência por causa do nível cultural. Não posso conversar com uma pessoa que, de repente, vai querer ouvir funk. Em algum momento, a diferença de vivências vai pesar. Se pintar paixão, tudo que estou dizendo é bobagem. Mas, se não pintar, prefiro a coerência na relação.
TV Press - Você está na Record desde a retomada da teledramaturgia na emissora, com A Escrava Isaura. Como foi ter saído da Globo depois de mais de 20 anos?
Silvia - A Record teve um crescimento absurdo desde que eu entrei. Comecei gravando A Escrava Isaura ainda em São Paulo. De repente, construíram o RecNov, que a cada dia está maior. É um progresso inacreditável. Depois, atuei em Prova de Amor, Vidas Opostas e Amor e Intrigas. Nesta última, vivi uma mulher que morria de câncer. Em televisão, na Record, fiz os trabalhos mais estimulantes da minha carreira. Aqui não fiz a dondoca bonita. Normalmente, você é rotulado na televisão.
Na Globo era assim, mas não critico. Também fiz personagens maravilhosas lá, mas na Record estou podendo exercitar lados meus como atriz que nunca havia feito em televisão. A Suzana é muito interessante. Na Globo, fui protagonista de Um Sonho a Mais sem ter a experiência que tenho hoje. Fui jogada às feras e contracenava com atores muito mais tarimbados que eu.
TV Press - Você sempre foi uma referência de mulher bonita na TV. Como lidou com o passar do tempo?
Silvia - Se você usa a beleza como a única coisa, tem uma hora que vai ficar patético. Você tem de ter outras coisas. Hoje eu sou uma profissional cujo sonho de consumo são atrizes mais velhas, como Bibi Ferreira e Fernanda Montenegro. É uma profissão na qual você não precisa sempre ser a mais bela. A beleza é efêmera. A gente vive em um mundo que isso parece ser o mais importante. As pessoas vão se modificando e isso me impressiona muito. Não quero isso. Quero envelhecer com harmonia. Estou vivendo o presente e não sei como vai ser amanhã. Claro que ninguém tira de letra o envelhecer. Não é isso! Mas você tem de saber lidar com essas transformações.
TV Press - Você começou na TV em programas humorísticos, como o Viva o Gordo. Como foi esse início? Você sofreu preconceito por sair da linha de shows para as novelas?
Silvia - Fui sugerida para ir às novelas porque ganhei o prêmio de atriz coadjuvante no filme Bar Esperança (de Hugo Carvana). Era boa como atriz de pequenos quadros humorísticos, mas eu nunca tinha feito nada mais expressivo em televisão. Mas tive jogo de cintura. Sou filha de diplomata. Passei meus primeiros 18 anos viajando o mundo inteiro. Depois, comecei a criar raízes no Brasil, trabalhei como modelo, comecei a fazer programas de televisão e veio o gostinho de realizar o sonho inicial que era ser atriz, uma "movie star". Agora, estou colhendo os frutos, em um momento feliz com o musical Marlene Dietrich - As Pernas do Século. Faço uma mulher de 90 anos que vai rejuvenescendo para contar a vida dela, os amantes, a Segunda Guerra Mundial. Fui indicada para o Prêmio Shell e ganhei como Melhor Atriz na Alerj. Estou muito feliz, colhendo frutos do que fui plantando desde os cinco anos de idade, quando eu fazia balé. Quando ouvia a plateia fazendo "ahh", eu já pensava, "ai, que delícia". É esse reconhecimento e esse aplauso que eu quero na vida.
