Francisco Cuoco, aos 77 anos, garante que vive hoje uma experiência única em sua carreira, depois de 46 anos dedicados aos folhetins. Sucesso na pele do misterioso Herculano Quintanilha em O Astro, em 1977, o ator se mostra visivelmente emocionado por ser homenageado no remake de Janete Clair. Na história, interpreta o enigmático Ferragus, espécie de mentor do Herculano desta versão, vivido por Rodrigo Lombardi. Um papel criado especialmente para marcar a "passagem de bastão" de um para o outro. "Dá uma impressão de volta no tempo. Tudo fica tão entrelaçado! Chego a me confundir algumas vezes", diz. A sensação de regresso fica ainda mais explícita em função de um detalhe no figurino dos personagens: o turbante, que chamou bastante atenção na década de 70. "A ideia da chamada televisiva que gira e mostra a fusão de um mesmo personagem ficou bonita demais. Foi uma grande emoção", explica.

TV Press - O Rodrigo Lombardi hoje interpreta o papel que você fez em 1977. Como foi esse contato mais próximo com ele?
Francisco Cuoco -
Foi muito agradável. A gente é bem afinado. O Rodrigo tem uma longa trajetória de teatro e com trabalhos de boa qualidade. Além disso, tem muito carisma. O Raj, personagem que ele interpretou em Caminho das Índias, foi um grande sucesso. Fico feliz por terem dado o Herculano a muito boas mãos. Nós conversamos bastante sobre isso. Mas não acredito na necessidade de fazer algo como se fosse um espelho. Ele tem a leitura dele, com suas próprias emoções e empenho. Não dá para a gente dimensionar onde começa um Herculano e termina o outro, assim como não se separa água e vinho. Continua sendo vinho, mas com um sabor diferente. Entrei em O Astro para fazer essa "passagem".

TV Press - Foi difícil passar o bastão para ele?
Francisco Cuoco -
Foi bem tranquilo. Acho que o Rodrigo é a pessoa mais indicada para esse papel mesmo. Chego a me confundir com ele em alguns momentos. Eu fiz o papel do Lima Duarte em "Pecado Capital" quando fizeram o remake. São experiências diferentes que a gente vai vivendo e que fazem parte da vida de um artista. Por isso, a gente encara com naturalidade.

TV Press - Como você recebeu o convite para o remake de O Astro?
Francisco Cuoco -
Foi o Maurinho (o diretor geral Mauro Mendonça Filho) quem me chamou. Ele contou tudo sobre o projeto e eu aceitei. Fiquei contente com a escolha do elenco e o resto porque tudo está muito bem cuidado. Mas essa sensação de fazer, não dá para verbalizar. É uma emoção enorme e especial, diferente de tudo. Procuro até controlar para passar a mensagem do personagem. Gostei bastante da idéia. Achei que esse remake era um achado e me senti honrado com o fato de estar incluído.

TV Press - Você nota diferenças entre essa e a primeira versão?
Francisco Cuoco -
Não sei ainda exatamente. É uma história apaixonante e atemporal, mas acho que o realmente marca as diferenças é a evolução da própria Globo. Hoje, temos a possibilidade de contar com muitas locações e grandes avanços técnicos. Os truques de mágica, por exemplo, ficaram enriquecidos. Antes era mais a coisa de mentalização. Agora, apareço esporadicamente até o final da novela e de uma forma que o público não sabe se é concreta ou abstrata. Aliás, nem eu mesmo sei. Há nitidamente uma preocupação dos autores em atualizar a novela. É um olhar diferente, provavelmente mais pleno. Mas só acho possível regravar porque a Janete estava à frente do seu tempo.

TV Press - Você chegou a ter uma proximidade grande com a Janete Clair quando trabalharam juntos?
Francisco Cuoco -
Uma proximidade relativa. Nunca gostei de incomodar autores. Naquela época, eles trabalhavam até mais sozinhos e ficava complicada essa aproximação. Fiz uns três ou quatro trabalhos dela, lembro que todos com grande sucesso. Geralmente a obra dela conquistava. A Janete tinha o dom de escrever de acordo com o que ela sentia do povo. Era uma capacidade de percepção que poucos conseguem e que precisamos reconquistar.