Tempo voa mesmo. Cada vez + rápido. No começo dos anos 1980, transferi Jornalismo pra Faculdade da Cidade, no Rio de Janeiro, época em que a música popular brasileira ganhava reforço com a chegada de jovens talentos que logo mostraram qualidade e já chegaram fazendo sucesso, não só movimentando a noite carioca, mas rapidinho ganharam o Brasil.
Entre estes novos feras, Cazuza, claro, não só pelo carisma, ou performance, mas principalmente por suas letras, incrivelmente sentidas e profundas, corajosas, ousadas. Como ele. Não eram só gostosas de ouvir, mas nos faziam pensar. E concordar. Lembro muito bem de vários shows, alguns que terminaram em festas em casas de amigos em comum, ou nos bares do Baixos Leblon. Inesquecíveis.
Sua obra confirma o que sempre digo, é eterno quando é incrível e não quando dura a vida toda.
Como Lady Di, Elis Regina, River Phoenix, Leila Diniz, Amy Winehouse, Jimi Hendrix, Vera Arruda, Jim Morrison, Kurt Cobain, Cazuza marcou época, fez história e partiu. A dor foi profundamente sentida, e lá se vão 30 anos. Confesso que ele é bem vivo na minha memória. Diante de tantos e graves absurdos praticados no Brasil, demonstrando ganância, egoísmo, ignorância e cafonice me pego imaginando as reações que ele teria e traduziria em músicas. Lembro com detalhes de seu último show, já bem debilitado, mas sempre poético e ousado, quando baixou a calça e botou a bunda na cara do mundo.
Esta não seria minha pauta de hoje, até já estava escrevendo outra, mas lembrei de Cazuza e resolvi prestar esta homenagem. E afirmo sem medo de parecer exagerado (ops!), ele é 1 dos compositores que + me fizeram pensar com suas letras. E emocionar. Então, nesta postagem, pensei em reproduzir aqui 3 de suas icônicas poesias, que falavam do Brasil e dos brasileiros como se estivesse antevendo e prevendo o futuro que agora é presente.
Assim, minha reverência ao irreverente Agenor de Miranda Araújo Neto, + conhecido como Cazuza, que fez História. E marcou muitas, inclusive a minha.
O tempo não pára
“Disparo contra o Sol
Sou forte, sou por acaso
Minha metralhadora cheia de mágoas
Eu sou um cara
Cansado de correr
Na direção contrária
Sem pódio de chegada ou beijo de namorada
Eu sou mais um cara
Mas, se você achar
Que eu tô derrotado
Saiba que ainda estão rolando os dados
Porque o tempo, o tempo não para
Dias sim, dias não
Eu vou sobrevivendo sem um arranhão
Da caridade de quem me detesta
A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas ideias não correspondem aos fatos
O tempo não para
Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não para
Não para, não, não para
Eu não tenho data pra comemorar
Às vezes os meus dias são de par em par
Procurando agulha num palheiro
Nas noites de frio é melhor nem nascer
Nas de calor, se escolhe: É matar ou morrer
E assim nos tornamos brasileiros
Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro
Transformam o país inteiro num puteiro
Pois assim se ganha mais dinheiro
A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas ideias não correspondem aos fatos
O tempo não para
Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não para
Não para, não, não para
Dias sim, dias não
Eu vou sobrevivendo sem um arranhão
Da caridade de quem me detesta
A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas ideias não correspondem aos fatos
Não, o tempo não para
Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não para
Não para, não, não, não não para”.
Cazuza e Arnaldo Brandão
Todo o Amor Que Houver Nessa Vida
“Eu quero a sorte de um amor tranquilo
Com sabor de fruta mordida
Nós na batida, no embalo da rede
Matando a sede na saliva
Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nesta vida
E algum trocado pra dar garantia
E ser artista no nosso convívio
Pelo inferno e céu de todo dia
Pra poesia que a gente não vive
Transformar o tédio em melodia
Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nesta vida
E algum veneno anti-monotonia
E se eu achar a tua fonte escondida
Te alcanço em cheio, o mel e a ferida
E o corpo inteiro como um furacão
Boca, nuca, mão e a tua mente não
Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nesta vida
E algum remédio que me dê alegria”.
Cazuza e Frejat
Brasil
“Não me convidaram
Pra esta festa pobre
Que os homens armaram
Pra me convencer
A pagar sem ver
Toda essa droga
Que já vem malhada
Antes de eu nascer
Não me ofereceram
Nem um cigarro
Fiquei na porta
Estacionando os carros
Não me elegeram
Chefe de nada
O meu cartão de crédito
É uma navalha
Brasil!
Mostra tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil!
Qual é o teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim
Não me convidaram
Pra essa festa pobre
Que os homens armaram
Pra me convencer
A pagar sem ver
Toda essa droga
Que já vem malhada
Antes de eu nascer
Não me sortearam
A garota do Fantástico
Não me subornaram
Será que é o meu fim?
Ver TV a cores
Na taba de um índio
Programada
Pra só dizer: Sim, sim
Brasil!
Mostra a tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil!
Qual é o teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim
Grande pátria
Desimportante
Em nenhum instante
Eu vou te trair
Não, não vou te trair
Brasil!
Mostra a tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil!
Qual é o teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim
Brasil!
Mostra a tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil!
Qual é o teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim
Confia em mim
Brasil!”.
Cazuza / George Israel / Nilo Romero
“Blues da Piedade”
Agora eu vou cantar pros miseráveis
Que vagam pelo mundo derrotados
Pra essas sementes mal plantadas
Que já nascem com cara de abortadas
Pras pessoas de alma bem pequena
Remoendo pequenos problemas
Querendo sempre aquilo que não têm
Pra quem vê a luz
Mas não ilumina suas minicertezas
Vive contando dinheiro
E não muda quando é lua cheia
Pra quem não sabe amar
Fica esperando
Alguém que caiba no seu sonho
Como varizes que vão aumentando
Como insetos em volta da lâmpada
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Dê lhes grandeza e um pouco de coragem
Quero cantar só para as pessoas fracas
Que tão no mundo e perderam a viagem
Quero cantar o blues
Com o pastor e o bumbo na praça
Vamos pedir piedade
Pois há um incêndio sob a chuva rala
Somos iguais em desgraça
Vamos cantar o blues da piedade
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Dê lhes grandeza e um pouco de coragem”.
Cazuza e Frejat

