Eliane Aquino*
 
Há que ter um marco entre um tempo e outro. Eu estou exatamente neste marco, entre um passado de aprendizado, um presente sem clareza e um futuro sem expectativas. Foge-me à compreensão a certeza de que pouco ou nada fiz, para chegar a esse momento recheada de realizações e muitos sonhos; vejo-me estranha entre estranhos e falta-me a coragem que sempre imaginei ter, por natureza, para enfrentar essa passagem de tempo com tempo para construir perspectivas reais de felicidades e amadurecimento.
 
Há, deveras, uma culpa existencial dentro de mim, lembrando-me oportunidades perdidas em um tempo que, antes deste tempo, era um tempo promissor para um crescimento real. O que me faltou? Amar menos? Ser menos ética? Menos emotiva? Menos corporativista? Faltou-me, talvez, o egoísmo próprio de grandes (?) vencedores? Deixei, por acaso, de pensar mais na ambição para pensar no propósito de ajudar mais quem menos tem?
 
Se me corrói, hoje, a dúvida de que se agindo coletivamente eu fui menos inteligente para comigo mesmo, tenho a sensação certeira de que não sinto, com relação a isso, quaisquer frustrações. A minha decepção está nas pessoas que olham sem enxergar; que gostam sem amar; que elogiam sem admirar; que usam sem valorizar; que desmerecem o foco central da relação pessoal na motivação da vida em conjunto.
 
O tempo, todavia, não espera pelas conclusões. Implacável, ele segue em sua gradatividade sem espaço para os atrasos; urge que entendamos o mais rápido possível o que queremos, onde estamos e o que podemos fazer para acompanhar esse compasso que não para, que não aguarda, que não dá trégua.
 
Sinto-me menos perdida do que eu mesma possa avaliar; mas recuso-me a entender a junção do bem e do mal no espectro nojento das ambições de poder pessoal; onde está o amor individual pelo próximo? A leitura do que é certo e errado? A objetividade da valorização dos sentimentos?
 
Nesse meio tempo desse tempo que começa a regredir no espaço dos anos, ouço a mim mesma: o erro não é do amor em demasia, mas da falta desse amor em potencial.
 
De todo modo, se não mais acredito no futuro, pelo menos não desprezo o passado, mesmo sem acreditar mais no presente.
 
*É jornalista e advogada