A imagem do Brasil foi construída e veiculada pelos atores dominantes como sendo um país e o seu povo de índole pacífica. Em seus 500 de domínio das potências europeias e estadunidense a prática contraria o discurso. A ideologia distorce a realidade, esconde os reais interesses políticos e econômicos e mantém as massas submissas e alienadas do processo histórico.
Alinhada à linha de pensamento das classes dominantes, a ação diplomática era justificada internamente, submetendo-se os acordos internacionais dos dirigentes das grandes potências econômicas e bélicas. Na colonização portuguesa, a população nativa foi subjugada, escravizada e espoliada, e utilizada como moeda nas negociações entre as potências. Até o século XX do período republicano, a relação internacional não foi diferente.
Os dois lados da moeda: por um lado, o invasor e dominador, com suas artimanhas e manipulação; do outro, os povos nativos, lutando e resistindo às forças beligerantes. Para manter os seus interesses internamente, os invasores deixaram seus aliados. Existindo ou não sinais dos interesses serem contrariados, foram executados golpes civis e militares. Um dos exemplos dramáticos da diplomacia internacional foi a carnificina do século XIX, comandada pela Inglaterra e executada pela tríplice aliança (Brasil, Argentina e Uruguai) contra o Paraguai - leia-se o povo Guarani.
Quanto à população, manifestações populares, movimentos e instituições sempre se debateram contra a submissão e imposição de modelos importados pelos representantes da burguesia internacional. Em nível governamental, na última década, efetivamente, surgiram sinais de mudança ideológicos da relação do Brasil com a sua população e com as outras nações.
No seio do povo brasileiro, ideologicamente, sente-se um clima de afirmação propositiva e de autoestima. Não somente pelo crescimento econômico, mas também pela presença de seus representantes no cenário internacional. Não foi gratuita e aleatória a afirmação do presidente estadunidense, Barak Obama, ter denominado o ex-presidente Lula de “o cara”.
Basta lembrar a guerra midiática, representante de plantão internamente do capital internacional, na defesa do neoliberalismo e da criação da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA). Ao longo de meio século, Cuba sofreu com o bombardeio ideológico e, recentemente, a Venezuela, Bolívia e Paraguai. Pelos âncoras e palpiteiros da Rede Globo, o Brasil teria que cortar relações diplomáticas com o governo de Hugo Chaves e invadir a Bolívia e o Paraguai, nos casos do gás e da hidrelétrica.
O que se viu do governo brasileiro foi a afirmação da alteridade, desconstruindo a ALCA e fortalecendo a autonomia das nações pobres do mundo. Coerente com o projeto de nação, um dos últimos atos de Lula na presidência da República foi não ter se submetido ao governo italiano no caso da deportação de Cesare Batista - independentemente do mérito.
E o povo brasileiro aprovou o seu governo com índices recordes de popularidade e explicitado com a eleição da presidente Dilma Rousseff,. Isto faz recordar a afirmação do eterno pedagogo nordestino, Paulo Freire: para o oprimido se libertar é necessário arrancar de dentro de si o opressor que foi introjetado.
* É professor do Cesmac e jornalista
