Comer bem ou dormir bem?

O título do artigo de hoje remonta a uma palestra a que assisti há muitos anos, em que um professor especialista em finanças se referia aos investimentos em bolsa e em juros. Para ele, o comer bem estaria associado aos maiores ganhos em bolsas (ainda que sujeitos às oscilações, nem sempre suaves), enquanto o dormir bem associado aos ganhos nas aplicações na renda fixa, com resultados menores, mas não sujeitos a grandes oscilações... o investidor dormiria tranquilo, portanto!

Com efeito, a grande maioria dos livros acadêmicos de finanças aponta o investimento em ações como estratégia adequada para o ganho no longo prazo em detrimento dos investimentos mais conservadores como títulos de dívida das empresas e/ou títulos públicos. Mas ainda que o senso comum aponte para as aplicações de risco, devemos considerar algumas questões, principalmente para o investidor comum, não especialista nos mercados. Se esse é o seu caso, querido leitor, querida leitora, o artigo de hoje vem bem a calhar. Acompanhe-me!

Em primeiro lugar é preciso avaliar em qual ou quais mercados as constatações citadas se aplicam. No mercado norte-americano (que valoriza e incentiva o empreendedorismo) 58% das famílias investem em bolsa, direta ou indiretamente, via fundos ou planos de previdência, enquanto no Brasil apenas 2% fazem o mesmo. Essa pujança também fica demonstrada pelo número de empresas listadas em bolsa: nos EUA há 3.200 listadas na NASDAQ ou 2.100 na NYSE, enquanto no Brasil chegamos a 445 (registradas em fevereiro de 2024). Certamente isto reflete a trajetória das taxas de juros praticadas no Brasil, que historicamente altas, encarecem os financiamentos (e por conseguinte inibem empreendedores) e estimulam os investimentos no “dormir bem”.

O segundo ponto a se mencionar é o que considerar como longo prazo. No caso brasileiro, tomando-se por base a variação do IPCA como medida de inflação, a variação do CDI como medida da rentabilidade em juros, a variação do Ibovespa como medida da valorização da bolsa, e listando os ganhos acumulados até 01/09/2025, os resultados impressionam... e confundem aqueles que olham para janelas curtas de tempo. Vejam (valores obtidos no site maisretorno.com):

(a) Do início do plano real até o final do período (um pouco mais que 31 anos): IPCA: 749%; CDI: 9.276%; Ibovespa: 3.845%; (b) De 31/12/2000 (quase 25 anos): IPCA: 335%; CDI: 1.485%; Ibovespa: 816%; (c) De 31/12/2010 (quase 15 anos): IPCA: 129%; CDI: 282%; Ibovespa: 102%; (d) De 31/12/2020 (quase 5 anos): IPCA: 26,18%; CDI: 60,39%; Ibovespa: 18,87%; (e) De 31/12/2024 (o ano corrente): IPCA: 3,22%; CDI: 9,08%; Ibovespa: 17,61%.

O exame dos dados anteriores nos leva a algumas observações: (1) independente de onde se investiu (Ibovespa ou CDI), houve ganho real (acima da inflação); (2) Houve ações e fundos de ações que superaram os resultados do Ibovespa (que é uma média), mas também houve aqueles que não conseguiram bater o índice; (3) O mesmo ocorre com os investimentos em renda fixa: houve títulos e fundos que bateram o CDI e outros que não; (4) Nas janelas de tempo apresentadas, somente em 2025 o Ibovespa superou o CDI, deixando muitos animados com a perspectiva de que a tendência se mantenha... Será? A refletir, já que ainda não há perspectiva de queda nas taxas de juros no Brasil. Como ilustrativo, no site do Tesouro Direto em 29/09/2025, encontrei títulos com vencimento em 2029 oferecendo 7,84% ao ano além da variação do IPCA, que tal? E você, qual a sua perspectiva: comer bem ou dormir bem?

Um grande abraço e até a próxima!