Envolvido em planejamento financeiro pessoal há pelo menos duas décadas, percebo nas conversas, nas consultorias, nas aulas ou palestras, que a cada dia que passa, mais e mais pessoas têm interesse em ampliar sua capacidade de guardar, conseguindo assim realizar sonhos de médio e longo prazos. A princípio, ótima notícia poder constatar essa mudança de hábito, mas vejo também que a maioria se preocupa mais em aumentar seus ganhos para assim conseguir enfrentar gastos maiores sem perder o espírito poupador do que reduzir gastos. Fiquei refletindo: será que esquecem que um real ganho a mais tem o mesmo valor que um real gasto a menos?

E você, meu querido leitor, minha querida leitora, também pensa desta forma? Acredita, portanto, ser mais fácil aumentar ganhos do que reduzir despesas? Taí, não consigo me convencer disso, e minha descrença baseia-se no fato de que, para aumentar suas receitas, uma pessoa ou empresa, precisa combinar com o outro lado, não é mesmo? Exemplifiquemos: (a) um colaborador de uma empresa, para ter suas receitas aumentadas, precisa pedir aumento ao chefe ou, nos casos em que a empresa admite a possibilidade e existe o que fazer, ficar algumas horas extras no trabalho; (b) um profissional liberal sem vínculo empregatício (médico, advogado, dentista) precisa ou aumentar o preço de suas consultas ou a sua base de clientes para conseguir a receita adicional, o que nos leva a questionar: seus atuais clientes concordarão com o novo preço? Conseguirá atrair mais clientes ao seu consultório? Mesmo uma empresa deve analisar criteriosamente qual efeito irá prevalecer em suas receitas diante das alternativas: aumentar preços unitários e eventualmente vender menos com maior margem ou reduzir preços unitários para ganhar no volume maior vendido?

Por outro lado, quando pensamos em redução de custos ou despesas, fica claro que a estratégia neste sentido depende muito pouco (ou quase nada!) de variáveis externas, salvo nos casos em que a economia de gastos acarrete impactos negativos nas receitas, o que aconteceria por exemplo, se um restaurante decidisse cortar custos reduzindo a qualidade dos produtos que usa nas refeições que serve. Não é à toa que boa parte das empresas bem sucedidas implementa rígido programa de controle de custos, visando sobretudo o desperdício. Mesmo um profissional liberal, procura otimizar seus gastos profissionais procurando opções mais baratas em termos de telefonia, atendimento, fornecimento de material, dentre outros insumos.

Bem, e no caso daqueles que vivam exclusivamente de salário, onde seria possível a redução? Revendo o parágrafo anterior, já temos uma dica: na medida do possível, nunca nas despesas essenciais, tais como escolas, prestação da casa ou do carro, condomínio, supermercado e outros. Costumo sugerir que comece pelos itens que menos lhe causem sacrifícios, conforme ilustra a seguinte sequência:

(1) Gastos associados ao descontrole: Correspondem àqueles que não lhe trazem qualquer benefício ou prazer, e o melhor exemplo desta categoria recai em multas, juros e taxas por conta de pagamentos não feitos ou feitos em datas posteriores ao vencimento. Pagar tudo em dia é eliminar parte ou todo este grupo.

(2) Gastos associados ao desperdício: Correspondem àqueles que você incorre por adquirir bens e serviços que não usa ou por pagar sobrepreços por falta de pesquisa. Se um aparelho de TV modelo XYZ tem preços diferenciados em lojas distintas, adquira-o na loja mais barata; se você paga uma academia que não frequenta, pense em cancelar o plano.

(3) Gastos associados ao supérfluo: Correspondem àqueles pequenos luxos que, à primeira vista você não pensa em abrir mão, mas que numa emergência ou diante de um sonho maior, formam o terceiro grupo destinado à tesoura. Cada um sabe o que entra aí, só não vale confundi-los com os essenciais. Esclareço: ir ao restaurante com a família de vez em quando faz parte do lazer, da convivência, do prazer. Não é supérfluo na minha forma de ver. Mas, em um fim de semana frequentar cinco, já passa da conta, concorda?

(4) Gastos essenciais: Correspondem a todos aqueles não listados nas categorias anteriores. Inclua lazer, saúde, moradia, vestuário, transporte dentre outros. Eles formam a essência de sua vida; proteja-os contra cortes procurando alternativas menos dolorosas. Só mesmo uma emergência deveria justificar você mexer com eles!

Até a próxima e um grande abraço!