Ganhei um prêmio
Lembro-me de quando eu era pequeno e começaram os jogos da Loteria Esportiva, lá pelos idos dos anos 70. Era época da Copa do Mundo no México, o Brasil com um timaço – sagrou-se tricampeão – o que nos deixava com um otimismo exuberante, capaz de alimentar sonhos improváveis de ganharmos sozinhos o prêmio milionário. E o que não faltava era plano sobre o que fazer com o dinheiro.
De lá para cá, devo admitir, joguei poucas vezes na loteria e demais sorteios oferecidos, a exceção ficando por conta de bolões com meu grupo de amigos da época de colégio... vai que o grupo ganha e eu fico de fora, nem pensar, não é mesmo? No mais, a falta de tempo, ser completamente “por fora” quando o assunto é futebol, as extensas filas extensas nas casas lotéricas, enfim, vários motivos me afastaram dos guichês de aposta. Não jogando, obviamente, a possibilidade de ganhar algo é nula. Mas, se tivesse certeza do futuro e soubesse de antemão que não iria ganhar nada, os mais de 50 anos do “não-jogo” decerto me fizeram poupar algum, não é mesmo?
Bem, mas vamos admitir que você, meu querido leitor, minha querida leitora, seja menos preguiçoso que eu, e continue a fazer a sua fezinha... Ou que simplesmente tenha sido contemplado com um prêmio fora de hora. O que fazer? Antes de sair por aí comemorando (merece, claro!) cuidado: a maioria dos pouquíssimos sortudos que, de uma hora para outra, tem chances de mudar padrão de vida, em muito pouco tempo perdem praticamente tudo o que ganharam, sendo comuns até mesmo os que acumulam dívidas. Um caso emblemático publicado na mídia foi o de um grupo de garçons cariocas que, sorteados em um bolão, na segunda seguinte se desligaram do restaurante onde trabalhavam. Muita emoção e pouca razão na escolha. O prêmio que cada um recebeu não era suficiente para que parassem de trabalhar; além disso, por terem pedido demissão, perderam uma série de direitos trabalhistas. Ou seja, deixaram literalmente dinheiro na mesa!
O que sugiro para casos como esse? O ideal é que se deixe a poeira baixar para que, calma e racionalmente, se chegue às melhores conclusões sobre o que fazer. Algumas dicas:
(1) Verifique o valor do prêmio: Se este é baixo, tudo bem que você o gaste curtindo com a família um fim de semana inesperado ou renovando o guarda-roupa, mas se for alto, planeje antes de gastar. Dividir o prêmio pelo valor líquido de seu salário é um bom ponto de partida. Mas, independente do número que encontrar, não peça demissão de imediato. Tenha calma!
(2) Aplique integralmente o prêmio: Enquanto espera para decidir o que fazer, procure investir o que recebeu, visando sobretudo proteger o poder de compra do dinheiro. Venhamos e convenhamos, se o prêmio for muito alto, sua vida financeira está resolvida, não é preciso se meter em investimentos que visem crescimento, mas que embutam riscos desnecessários.
(3) Gaste apenas os rendimentos: Tendo aplicado o seu prêmio, a disciplina em gastar apenas os juros que você irá receber, manterá esta sua nova fonte de renda intacta, ainda que seja preciso verificar quanto do rendimento recebido é juro real e quanto é reposição da inflação. Essa dica vale até para presentear os parentes. Use apenas o rendimento para fazer isso!
(4) Avalie se montar o próprio negócio é razoável: Muitas histórias de insucesso após polpudos prêmios vêm quando o ganhador resolve abrir sua própria empresa, usualmente na área em que já trabalhava – por exemplo: o garçom que abre o restaurante. Deve-se ter cuidado com essa alternativa pois uma coisa é ter competência para preparar o melhor prato ou servir bem uma mesa, outra é ter competência para ser empresário, capaz de conviver com todos os riscos de um empreendimento.
(5) Cuidado com os brinquedos caros: Carro importados, lanchas, iates e outros caros sonhos de consumo são bens repletos de custos ocultos para os quais se dá pouca atenção (vide o artigo da semana passada!). Claro que se você ganhou R$ 20 milhões, isto pouco importa, mas para quem ganhou R$ 500 mil – com as taxas de juros atuais equivalente a um rendimento real de aproximadamente R$ 1.500 – talvez seja o caso de se repensar, não é mesmo?
Torço para que você seja em breve um felizardo. E que com as minhas dicas, consiga estabelecer um bom padrão de vida por muitos e muitos anos!
Um grande abraço e até a próxima!

