Dando sequência ao que conversamos no artigo da semana passada (As aparências enganam), a primeira etapa da estratégia para que você, caro leitor, cara leitora, possa se proteger financeiramente na fase em que não mais estiver na ativa é realizar uma estimativa de quanto precisará de complemento de renda para a manutenção do padrão de conforto a que está acostumado ou a que deseja ter no futuro.

Vale aqui usar o bom-senso, ou seja, não imaginar que se vivemos hoje com um padrão de R$ 5.000 mensais durante nossa fase ativa, conseguiremos dobrá-lo ou, inversamente, reduzi-lo quando entrarmos na fase do descanso. O mais razoável é estimarmos que precisaremos de renda aproximadamente idêntica ao nosso último salário (ou qualquer outro rendimento) enquanto ativos pois, mesmo que economizemos em itens que antes eram relevantes em nosso orçamento – refeições no ambiente de trabalho ou programas de atualização profissional, por exemplo – possivelmente arcaremos com custos adicionais em planos de saúde, lazer e outros. Mas esta não é uma regra fixa. E não custa lembrar que a decisão de formar um colchão de segurança para o futuro passará necessariamente por uma restrição no consumo presente... não há mágica!

Também é importante salientar que o planejamento para a aposentadoria deve estar desvinculado de outros planos que estejam em mente, como ajudar na compra do apartamento do filho que irá se casar ou realizar a viagem há tanto tempo tão sonhada, por exemplo. O roteiro que apresento a seguir foi simulado para um personagem que consegue R$ 15.000 de renda bruta mensal, mas pode ser ajustado para se adaptar a sua específica realidade. Vamos lá?  

1) Renda bruta total durante a fase ativa: Corresponderá à soma dos valores brutos recebidos antes de quaisquer descontos. Nosso personagem, o Renato, recebe um salário bruto de R$ 13 mil, complementados por R$ 2 mil referentes ao aluguel de imóvel de sua propriedade, não entrando aí as taxas associadas a este imóvel, que são reembolsadas por fora.

2) Renda bruta disponível: Corresponderá ao valor citado no item anterior abatido dos descontos que irão desaparecer na fase de aposentadoria, como por exemplo, as contribuições para o INSS e/ou entidades profissionais.  Renato é descontado em R$ 900 mensais, apenas para o INSS. Sua renda bruta disponível é, portanto, de R$ 14.100 mensais. Caso participasse de um fundo de pensão e contribuísse mensalmente, também deveria ter este valor abatido. Não incluo os descontos do imposto de renda por dois principais motivos: o primeiro é porque ao se aposentar, sua renda também sofrerá a incidência do IR, o segundo é porque, a maioria dos planos de previdência vendidos pelos bancos e seguradoras, informa valores em termos brutos. Importante notar que este é o total de recursos que Renato dispõe hoje para tocar a sua vida.

3) Renda bruta para a manutenção do padrão quando inativo: Corresponderá ao valor citado no item anterior diminuído das despesas que irão desaparecer. Importantíssimo ser muito criterioso neste caso: o custo da educação dos filhos é quase certo que venha a desaparecer, já a redução do valor do plano de saúde – por não mais assumir o filho como dependente – nem tanto, já que em função da idade, o custo aumenta. Conservador, Renato prefere abater apenas a despesa de R$ 3.000 mensais com a educação do filho, o que faz com que sua renda bruta para manter seu padrão quando parar de trabalhar fique em R$11.100.  

4) Complemento de renda a se conseguir: Corresponderá ao valor citado no item anterior diminuído de todas as receitas futuras que estejam de certa forma garantidas, tais como o benefício do INSS e dos fundos de pensão que participe, dos aluguéis que receba e outras receitas. Nas condições atuais, e assumindo que continue a manter o imóvel de sua propriedade alugado, Renato terá R$ 7.786 correspondentes ao teto do INSS acrescidos dos R$ 2.000 de aluguel. Precisará, portanto, complementar sua renda em R$ 1.314.

O passo a passo apresentado foi meramente sugestivo, tendo por finalidade fazer uma estimativa do valor que Renato irá precisar. Relembrando que para obter o complemento desejado ele precisará reduzir seu consumo atual para guardar dinheiro para o futuro – portanto um sacrifício – nunca é demais ser cuidadoso nesta análise.

Finalizando, outro ponto também importante a considerar é a possibilidade de, ao longo de sua carreira, promoções, aumentos por méritos ou mesmo mudanças de emprego, Renato ter um aumento de renda, e, por conseguinte, aumentar o seu padrão de vida. A melhor sugestão para este caso é que ele periodicamente refaça seu planejamento de forma a sempre preservá-lo.

Um grande abraço e até a próxima semana!