Vamos falar sobre fotojornalismo?
Semana passada, conversando com jovens que farão este ano o Enem, um assunto na pauta da comunicação ganhou fôlego no debate: a imagem no jornalismo.
“Afinal, a foto na edição de uma reportagem é um enfeite ou uma informação”, queria saber a maioria deles. “Existe foto que dispensa legenda?”, indagava outra parte. “Quando o fotógrafo sabe que aquela é a foto maneira?”, questionavam alguns.
Respondi com base na minha experiência de quase 38 anos de jornalismo, mas prometi a eles a palavra de especialistas no tema.
Fiz o resumo de alguns dos questionamentos e ousei encaminhá-los a dois excelentes profissionais, Beto Macário, professor no Centro Universitário Tiradentes e fotojornalista do UOL, e Pei Fon, fotógrafa na Secretaria de Comunicação de Maceió, com currículo de fotojornalismo na área de esportes e outras.
Obrigada a ambos por aceitarem o desafio.
Aí está a promessa cumprida.
O que representa a imagem no jornalismo?
Beto Macário - A fotografia para o jornalismo é o caminho mais curto e democrático para o acesso à informação. Por ser considerada um exponencial da comunicação não verbal, ela tem o poder de inserir o leitor no ambiente em que está sendo descrito, sem o distanciamento natural que o texto possui (aspecto janela). Isso faz com o que o leitor, independente de sua escolaridade, tenha acesso à informação e possa compreender, de forma muito particular, o assunto que está sendo abordado.
Pei Fon - A imagem no jornalismo é a certificação de que, aquilo que está sendo dito, realmente aconteceu. O consumidor de notícias não pode ficar apenas imaginando como foi que aconteceu. O jornalismo não deixa de ser uma “contação de história”, porém vem amarrado de imagens para dar mais veracidade ao que fora dito.
Como achar o melhor ângulo da notícia para a fotografia?
Beto Macário - Acredito que o melhor ângulo da notícia é sempre o do fotojornalista... Rsrsrs.. Afinal, por se tratar a fotografia como um exemplo máximo da comunicação não-verbal, o codificador - no nosso caso, o fotógrafo - empresta muito de si, muito da sua experiência de mundo, para codificar uma mensagem, expressar aquilo que está acontecendo naquele momento... Cabe ao profissional perceber que aquela informação que ele está produzindo tem que ser recebida com clareza, seja emocionando, denunciando, ou simplesmente registrando o fato acontecido e que não pode passar em branco.
Pei Fon – Não existe uma regra sobre os ângulos. Depende bastante do assunto a ser fotografado. Uma reunião, por exemplo, mostra-se as pessoas envolvidas, o público, um foco nas personas importantes. Mas imagine uma manifestação. O melhor ângulo será aquele que captar a essência do ato, geralmente coberto de expressões faciais, multidão.
Quando cabe uma foto sem legenda?
Beto Macário - Se tratando de Jornalismo, a fotografia - por si só - não consegue responder a todas as perguntas que o lead necessita, por exemplo.. a partir deste preceito, se faz necessária a legenda o texto vinculado a todas elas.. eu acredito que para que a informação possa ser passada como muito mais eficácia, é preciso que isso seja respeitado.. Afinal, estamos falando de imagens que naturalmente são consideradas abertas., imagina, por exemplo, se deixássemos ao leitor a responsabilidade de decodificar aquela informação, sem nenhum indicativo textual, do caminho que ele deve seguir.. cada um poderia interpretar os fatos de acordo com suas impressões subjetivas e visões de mundo particulares na qual se restringiria a um simples 'gostar ou não' daquilo que está diante de seus olhos.
Pei Fon - A foto sem legenda é aquela que fala por si só. Vou usar o futebol como exemplo. Sabemos que é uma paixão avassaladora. Seja para o bem ou para o mau. No entanto, quando captura a imagem da torcida, seja a expressão de alegria ou tristeza, o torcedor se reconhece naquela atitude porque ele também se sente parte. Fazendo uso do ditado popular: “uma foto vale mais do que mil palavras”.
O que é arte e o que é jornalismo numa foto?
Beto Macário - Já com relação a arte na fotografia.. Sinceramente, por conta da minha formação, não consigo estabelecer nenhuma conexão da arte com as imagens feitas pela 'máquina de pintar'.. Quando alguns autores dizem que a máquina fotográfica surgiu em um ambiente extremamente positivista como o instrumento mais perfeito de reprodução do real, ela passa a ser 'condenada' a reproduzir algo que já exista.. É como se ela codificasse aquilo que está diante de suas lentes, iluminado.. É o exercício diário de registrar o mundo a uma linguagem, com suas limitações de formato.. A arte, por si só, é algo muito mais amplo.. Com uma representatividade muito diferente das imagens.. Eu acredito que as fotografias, se tratando do universo comunicativo, nunca deixem de ser cultura de massa...
Pei Fon - Arte e jornalismo andam numa linha tênue, acredito assim. Ambas contam história, a diferença está na sua distribuição. A arte é segmentada. O jornalismo massificado. A forma de como ambas chegam até o seu receptor é distinta. O alcance do jornalismo é maior e não requer muito entendimento para ser compreendido. A fotografia é uma arte e por meio dela que o jornalismo consegue chegar onde não se imagina. Andam juntas e uma precisa da outra.
Quando a foto deve ir para a capa de um site ou impresso?
Beto Macário - A Simonetta [Persichetti] anunciou que o fotojornalismo no Brasil está morto desde a década de 90.. eu concordo, em parte, com ela.. até porque nós vemos um movimento de alguns profissionais, hoje em dia, de privilegiar fotografias plasticamente belas.. em detrimento de fotografias informativas.. hoje nós vivenciamos a popularização das fotografias, afinal, todos conseguem ter acesso e produzir imagens em seus smartphones, câmeras digitais.. parafraseando a Simonetta.. é preciso lembrar que todos podem fotografar, mas, nem todos são fotógrafos.. "eu sei escrever, nem por isso me considero Machado de Assis".
Pei fon - Foto é capa quando o motivo é impactar. Chamar atenção. Cobrar respostas. Impressionar. Esse é o objetivo. O jornalismo é a ponte das pessoas com o judiciário, legislativo ou executivo. É a voz de uma minoria esquecida, dos inconformados. A foto não é a salvação dos problemas. Mas também não serve apenas para mostrar as coisas ruins, pelo contrário. A fotografia deve mostrar os bons exemplos sim. A fotografia é um recorte do nosso cotidiano.



