Imparcialidade no jornalismo, existe?

Essa é a pergunta que mais me fazem em palestras ou debates sobre comunicação.

Trabalhei em muitos jornais em vários estados do Brasil, em um tempo sem internet, sem canal fechado de TV e onde os impressos tinham peso grande na formação da opinião popular. Praticamente 95% dos programas jornalísticos de rádios seguiam a pauta dos jornais impressos e eles acabavam também pautando os telejornais.

As manchetes dos jornais eram vitrines certas em bancas de revistas, onde muita gente parava apenas para ver o que estava na mídia naquele dia.

Fui repórter e editora em jornais com características apenas comerciais e em outros tantos onde o lado político era o norte das pautas. No Correio da Bahia, em Salvador, jornal de ACM, fui repórter das editorias de Política e de Cidades. Em ano eleitoral, 1986, não se podia falar em imparcialidade por lá. Mas e nós, jornalistas, qual era o nosso sentimento? Qual era a nossa reação? O que nos cabia exatamente fazer?

Perguntei isso certa vez a uns alunos de Comunicação, em tempos de hoje, e eles me responderam, sem pestanejar: “pedir demissão”.

Não, não é essa a resposta correta e nem foi isso que fizemos.

Naqueles tempos de linha dura na redação do Correio da Bahia, os repórteres driblavam o jornalismo político direcionado da empresa com textos honestos, com apurações rigorosas, independente de que elas servissem ao todo-poderoso ACM ou aos adversários deles. Quando a matéria, honestamente apurada e escrita, com as versões de todos os lados, chegava à mesa da editoria, só tinha dois caminhos: ou ia para o lixo, ou era publicada. Mas não, não nos cabia, como profissionais, fazer o jogo do mau jornalismo em nome da política do patrão.

Se o texto era mexido, modificado, triturado?

Sim, alguns foram, inclusive alguns textos meus. Saiam sem assinatura, sem força, sem credibilidade, com gritos e queixas solidárias na redação, porque todos estavam juntos na mesma luta. A maioria dos editores fazia verdadeiros malabarismos para que valesse o que vinha das ruas e não o que era determinado pela direção da empresa. Nessa guerra, durante os nove meses em que trabalhei lá, não posso dizer que houve vitoriosos ou derrotados. Houve sim, um exército de profissionais valentes, ousados, criativos e determinados a fazer o que tínhamos como princípio de vida e regra do jornalismo: trabalhar com honestidade. E isso virou referência em outros veículos de comunicação em Salvador.

Para a pergunta se existe imparcialidade no jornalismo, a minha experiência diz que sim para o jornalismo feito com retidão, com honestidade, cumprindo regras éticas da profissão, e asseguro que, dessa forma, será difícil para qualquer veículo, por mais parcial que seja para esse ou aquele lado, trocar o bom, pelo mau jornalismo, e ter credibilidade. E isso valia lá no passado, e vale para hoje, no presente.

A história nos comprova isso.

Mas para se fazer o bom jornalismo, é preciso que mais do que regras didáticas, se tenha valores pessoais. São eles que nos ditam o que é, de fato, regra e exceção na ética profissional.

Em tempo: em 1986, pela primeira vez na Bahia, ACM, o poderoso Antônio Carlos Magalhães, perdeu a eleição majoritária no estado. O seu candidato ao governo, jurista Josaphat Marinho, foi derrotado por Waldir Pires.